sábado, 14 de agosto de 2010

NA CASA DO PAI


Nós cinco, no sentido relógio: Valter, Zenilda, Valquiria, Adauto e , no centro, Abigail.
Na casa do meu pai sempre havia um lugar para mim. Quando era criança dividia a cama com minha irmã. À medida que eu e meus irmãos, somos cinco ao todo, fomos crescendo,  meu pai aplicava todo o dinheiro de férias e décimo-terceiro salário para ampliar gradativamente a casa. Foi assim que as meninas passaram a ter o seu quarto e os meninos o deles. E eu a minha própria cama. Cada um tinha o seu lugar, mesmo em uma casa que sempre tinha agregados, e esse era motivo de orgulho para nós já que a maioria dos nossos amigos não tinham esse privilégio devido à questões econômicas.
Morávamos no Estado de São Paulo e na época em que fui estudar no Rio de Janeiro minhas irmãs queriam tirar a minha cama para ganharem espaço no quarto.  Eu podia até entendê-las. No entanto, meu pai não permitiu argumentando que enquanto não me casasse a minha casa seria aquela e eu teria o meu lugar. Passaram-se onze anos até que isso acontecesse e durante todo esse tempo, mesmo mudando duas vezes de casa, meu pai manteve a minha cama e, por conseguinte, o meu lugar na casa.
Quando Jesus afirma em sua Palavra que “na casa do meu Pai há muitas moradas, vou preparar-vos lugar”, posso entender perfeitamente que no céu haverá um lugar preparado para mim. E a razão está no amor, o que havia no coração do meu pai e aquele que há, multiplicadamente, no coração do meu Pai celeste. Mais do que um espaço físico na terra, que não sabemos como será no céu, tinha um lugar de filha, o mesmo que tenho junto a Deus.
Outro fator interessante no meu relacionamento com o meu pai é que ele nunca restringiu minha ação, em qualquer área, por ser mulher. Desde pequena atuava na igreja, assim que tive formação comecei a pregar, a liderar ministérios, e isso era sempre motivo de alegria e orgulho para ele. Todos o consideravam um batista de raízes e conservador e, mesmo assim, ele não via nenhum motivo para restringir minha ação no Reino de Deus por ser mulher.
Penso que isso se devia ao fato de que quando se converteu, na década de 1940, na cidade de Quatá, em São Paulo, pastoreava a igreja da cidade o Pr. André Peticov, que anos mais tarde foi secretário executivo da Convenção Batista do Estado de São Paulo. Sua esposa, Gláucia Curvacho Peticov, era uma mulher atuante, capaz, que trabalhava muito na igreja e ensinou o meu pai a servir a Jesus. Autora de várias peças teatrais, poesias e textos para cultos comemorativos especiais, trabalhou muitos anos nas igrejas e marcou a vida de muitas pessoas, inclusive a do meu pai. Portanto, ele aprendeu desde cedo no seu crescimento cristão, a parceria saudável de homens e mulheres trabalhando juntos para edificação da igreja de Jesus Cristo.
Esse espaço de aceitação e amor, de valorização, foi muito importante para o meu desenvolvimento e maturidade e me fizeram a pessoa que sou hoje. Tínhamos longos debates sobre questões teológicas e eclesiásticas, sentados à mesa e tomando um delicioso café preparado por minha mãe, e jamais, em momento algum, fui menosprezada ou desconsiderada por ser mulher.
Tenho profundas saudades de todos os momentos que vivi na casa do meu pai e meu consolo é pensar que um dia estaremos juntos, novamente, na casa do nosso Pai celestial.

(Publicado em OJB 080810)

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