segunda-feira, 21 de setembro de 2009

A VIDA EM CINZA

Chove muito, mesmo para São Paulo onde as chuvas são habituais. As cidades da região metropolitana não aguentam tanta água e o caos se instala. As flores, ainda que presentes, passam despercebidas pela moldura do céu que acinzenta tudo ao redor. Não há sol, não há o cantar dos pássaros ou as folhas empurradas suavemente pelos ventos. Tudo parece cinza.
Às vezes a vida parece assim: cinza. Ficamos sem perspectiva, com impressão que tudo perdeu o colorido e a alegria. Já não há o que nos motiva a ir em frente e a lutar. No caso das mulheres, aparentemente nada existe pelo qual valha a pena deixar a frente da televisão, ou a rotina do trabalho, arrumar-se ou sorrir. Algumas agem como se fossem robôs frente à vida, ligadas no automático para os deveres diários, sem encontrar neles sentido e motivação.
O assunto vem sendo foco de estudos de algumas ciências, dado a sua importância nos dias de hoje: a falta de perspectiva diante da vida. O que faz uma pessoa perder a esperança e não ter mais motivação para empreender novos projetos e buscar a concretização de sonhos?
Um deles, apontado por Katie Brazelton (Caminhada de Mulheres com Propósitos, Ed. Vida), é o passado, isto é, os acontecimentos que fazem parte da nossa vida e nos tornaram o que somos hoje. Traumas, frustrações, abusos sexuais, rejeição, preconceito, aborto, perdas irreparáveis, doenças que deixam sequelas, práticas sexuais pecaminosas, enfim, inumeráveis fatores que podem funcionar como uma camisa de força que não permite que as pessoas prossigam com qualidade e motivação no seu caminhar. Nesses tempos de pós-modernidade, há um número muito expressivo de mulheres que aceitam a Cristo em fase jovem e adulta e vêm com muitas marcas de um passado que não conseguem deixar para trás. O coração fica dolorido ao perceber quantas são marcadas por aborto, promiscuidade e abuso sexual. Talvez esses sejam os grandes flagelos do nosso tempo, não somente na vida de mulheres, mas de homens também.
“Se pois o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8.36), é o texto que gostamos de repetir, mas nem sempre cremos em sua verdade. Jesus é capaz de curar as feridas deixadas pelo passado e tornar a pessoa livre para construir o presente e o futuro. Brazelton sugere alguns passos para isso, sendo o primeiro deles registrar a dor, isto é, escrever os fatos marcantes do passado, não importando a distância no tempo e pedir a Deus que cure e faça esquecer cada lembrança. Acrescentaria aqui a necessidade de pedir perdão a Deus e, se possível e necessário, às pessoas envolvidas, perdoando-as também. Outros passos apontados são: buscar ajuda, se necessário, de um(a) pastor(a) ou profissional, especialmente em casos de depressão ou experiências muito traumáticas; lembrar-se de momentos de cura já realizados por Deus a fim de trazer esperança; decidir confiar em Deus com todas as forças; perguntar: a quem minha dor poderia transmitir esperança e dispor-se a compartilhar sua experiência de cura e, por último, cercar-se de pessoas confiantes e cheias de fé.
Pode parecer simplista e pragmático demais, mas algum caminho precisa ser trilhado e para isso, em grande parte das vezes, o fardo chamado passado precisa ser tirado dos ombros e tornar-se um rico solo por meio do qual a vontade de Deus se cumpra na vida de cada pessoa, raiando o sol sobre ele, e permitindo novamente o renascer das flores e da vida. “(...) Uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Filipenses 3.13,14).
(Publicado em OJB 200909)

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

SONHO E PESADELO - MÉDICO OU MONSTRO?


Mulheres cheias de sonhos. Elas querem ser mães, embalar um bebê nos braços, e o tratamento na clínica do médico Roger Abdelmassih - especialista em reprodução -, após tantas tentativas frustradas de engravidar, enche o coração de esperança. Usam boa parte das economias para arcarem com os custos médicos e submetem os seus corpos a uma série de tratamentos, muitas vezes dolorosos, vencendo as etapas uma a uma.
Em algum momento do relacionamento médico-paciente muitas dessas mulheres, talvez um número incalculável delas, se sentem incomodadas: É o toque, são as palavras, toda a configuração do tratamento que incomoda. Por que ele dopa as pacientes? Por que alguns procedimentos são realizados sem a presença de uma assistente? Mas como suspeitar daquele médico paparicado pela mídia e consultado por mulheres famosas? Será que estavam loucas?
Pacientes tinham confirmadas suas suspeitas de abuso quando iam voltando à consciência após a sedação e se deparavam com atitudes inconvenientes e, conforme acusações, criminosas. O sonho tornara-se pesadelo. E calaram. Quase todas. Mas algumas, acordando da inércia, da letargia, resolveram falar. E foi uma, e outra, e mais outra, até agora 56 mulheres que denunciaram a violência sexual da qual foram vítimas. O médico, talvez monstro, agora preso e com seu registro suspenso, aguardará o julgamento e, se comprovadas as denúncias, será condenado. As primeiras queixas já vinham desde a década de 1970, portanto há cerca de 40 anos! Por quatro décadas esse homem é acusado de abusar de mulheres e somente agora é punido!
Por que muitas mulheres se calaram tanto tempo? Por que mulheres se calam frente a abusos e violência contra o seu corpo e seus direitos como ser humano? Ao longo da história, anseios femininos transformaram-se em pesadelo, porque alguém simplesmente decidiu macular a busca pela realização dos desejos mais íntimos e verdadeiros. Ao invés da alegria, tristeza; ao invés de se realizarem como seres plenos diante de Deus, enfrentam frustração e constrangimento por falta de mecanismos e espaços sociais e religiosos que deem credibilidade às suas palavras e sustentem suas reivindicações. Ainda há de se questionar a lucidez comprometida de uma grande parcela de mulheres, dopadas pela cultura, convicções teológicas equivocadas, coerção social e às vezes eclesiológica que as tornam vítimas em potencial de violência contra seus próprios sonhos e esperanças.
É preciso falar. O salmista afirma que “enquanto calei (...) envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia” (Salmo 32.3) e, apesar de o versículo estar em um contexto de confissão de pecados, pode ser aplicado à necessidade vital do ser humano de falar sobre traumas, direitos e sonhos. E Deus, ele que é o Verbo e habitou entre nós, e levou nossas dores como mulheres, certamente virá ao nosso encontro, como “voz que clama no deserto”, e então “os caminhos tortuosos serão retificados, e os escabrosos, aplanados, e toda a carne verá a salvação do nosso Deus”(Lucas 3.4).
(Publicado em OJB em 060909)